Abordagem nutricional no paciente diagnosticado com COVID-19: diretrizes clínicas

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Toda nova doença identificada exige que a comunidade científica corra contra o tempo para abranger todos os aspectos relacionados: estabelecimento de protocolos para diagnóstico, manejo, tratamento clínico, recomendações de prevenção, entre outros tantos cuidados relativos a qualquer patologia específica.

Somado a isso, quando a doença se trata de uma alta taxa de contágio, como no caso de doenças respiratórias ocasionada por vírus, em que a taxa de propagação e transmissão atinge o patamar de uma pandemia, tal como a que estamos vivendo, o cenário fica ainda mais agravado.

Por isso, diferentes protocolos clínicos já têm sido divulgados pelas sociedades ao redor do mundo. E não seria diferente no caso da nutrição.

A American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (Aspen) publicou no início do mês, um guideline sobre Terapia Nutricional no Paciente com Doença de COVID-19 em cuidados em unidades de tratamento intensivo (UTIs).

Segundo o posicionamento da Aspen, a necessidade de abordar o fornecimento de nutrição em cuidados intensivos é parte fundamental das medidas de apoio no paciente crítico. O manejo nutricional do paciente de UTI com COVID-19 é, em princípio, muito semelhante a qualquer outro paciente de UTI admitido com comprometimento pulmonar. Nesse sentido, dada a falta de evidência direta em pacientes com COVID-19, especialmente aqueles em choque, muitas das recomendações publicadas são baseadas em evidências indiretas de pacientes críticos, tais como pacientes doentes em geral e com sepse e SDRA.

Nesse sentido, o posicionamento inclui recomendações acerca da avaliação nutricional, vias de alimentação (enteral/parenteral), dose nutricional, evolução do tratamento nutricional e ajustes, seleção de fórmulas, monitoramento da tolerância nutricional,

Como pontos importantes, o guideline traz:

A administração de terapia nutricional ao paciente com doença de COVID-19 deve seguir os princípios básicos da nutrição em cuidados intensivos, conforme recomendado pelas diretrizes da sociedade européia e norte-americana.

Especificamente para esses pacientes, ocorre a necessidade de promover estratégias que reduzam a frequência com que os profissionais de saúde interagem com os pacientes, minimizem a contaminação de equipamentos adicionais e evitem o transporte para fora da UTI. Isso pode ser realizado por medidas simples, como a infusão contínua em vez de intermitente ou em bolus, calculando os requisitos de energia por equações baseadas em peso, uma vez que a calorimetria indireta pode não ser viável, evitando o uso de volumes residuais gástricos como um indicador da intolerância à nutrição enteral e reduzindo a necessidade de técnicas endoscópicas ou fluoroscópicas para a colocação do tubo de alimentação.

Como a maioria dos pacientes de UTI, espera-se que os pacientes COVID-19 tolerem a nutrição enteral e se beneficiem da resposta fisiológica favorável ao tratamento da mucosa intestinal com nutrientes luminais.

Além disso, ao contrário de demais pacientes gravemente enfermos, no entanto, o limiar para mudar para nutrição parenteral para o paciente com doença de COVID-19 pode requerer um tempo menor. O uso de nutrição parenteral nesses pacientes, especialmente naqueles com choque séptico grave ou quando é necessário suporte respiratório de alta pressão, pode ajudar a minimizar o risco de intestino isquêmico e reduzir a transmissão de aerossóis aos profissionais de saúde, evitando procedimentos envolvidos na colocação inicial e os cuidados de enfermagem necessários para manter um dispositivo de acesso enteral.

Além disso, também já temos no Brasil, um posicionamento publicado pelo BRASPEN Journal, que se direciona ao fluxo de assistência nutricional para pacientes admitidos com COVID-19 e SCOVID-19 em unidade hospitalar, conduzido por pesquisadores brasileiros e que revisa as práticas, processos e protocolos assistenciais, visando à garantia da qualidade e da segurança para pacientes e colaboradores que trabalham nas unidades hospitalares de todo o País.

Na publicação (confira aqui https://www.braspen.org/post/fluxo-de-assist%C3%AAncia-nutricional-para-pacientes-com-covd-19), as autoras consideram que o nutricionista deve realizar avaliação do risco nutricional nas primeiras 24 horas de admissão dos pacientes na instituição hospitalar, para planejamento do cuidado nutricional. Além disso, considerando a limitação da avaliação presencial, as autoras elaboraram critérios de elegibilidade de risco nutricional com base nas comorbidades relacionadas ao pior prognóstico, indicadores e sintomas associados à desnutrição e apresentam um fluxo de assistência nutricional para pacientes admitidos com Covid-19 e Scovid-19 em unidade hospitalar, como forma de direcionar e estabelecer um protocolo de assistência profissional.

Nesse sentido, neste momento em que muitas incertezas insistem em permanecer, os avanços em protocolos clínicos ascendem uma luz em relação ao melhor suporte clínico aos pacientes.

 

 

Referências bibliográficas:

Martindale, R.; Patel, J. J.; Taylor, B.; Warren, M.; McClave, S. A.. Nutrition Therapy in the Patient with COVID-19 Disease Requiring ICU Care. Aspen, Updated March 30, 2020.

Piovacari, S. M. F.;  Santos, G. F. C. G.;  Santana, G. A.;  Scacchetti, T.;  Castro, M. G. Fluxo de assistência nutricional para pacientes admitidos com COVID-19 e SCOVID-19 em unidade hospitalar. BRASPEN J 2020; 35 (1): 6-8.

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